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FHC encerra mandato com reprovação maior do que aprovação

Opinião Pública -

*Para 35% país está melhor do que antes do início do governo FHC; para 34% está pior *

Prestes a encerrar um período de oito anos ocupando a Presidência da República, Fernando Henrique Cardoso tem maior taxa de reprovação do que aprovação: para 36% dos brasileiros, o desempenho do presidente vem sendo ruim ou péssimo (mesmo percentual dos que consideram-no regular), contra 26% que acham que ele vem sendo ótimo ou bom.

Além disso, para 35% o país, hoje, de um modo geral, em relação ao que era antes do início do governo Fernando Henrique Cardoso, está melhor; percentual similar (34%) acha que o país está pior. Acham que o país não mudou nesse período, nem para melhor, nem para pior, 28%.

Esses são alguns dos principais resultados de pesquisa realizada pelo Datafolha entre os dias 9 e 11 de dezembro. Foram entrevistados 14559 brasileiros em 365 cidades de todas as unidades da Federação. A margem de erro máxima para esta pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Comparando-se os números relativos à popularidade do presidente com os obtidos ao final de seus mandatos pelos outros ocupantes do cargo após o fim do regime militar, verifica-se que Fernando Henrique Cardoso está em melhor situação do que José Sarney (1985-1990) e Fernando Collor de Mello (1990-1992), mas tem menor popularidade do que Itamar Franco (1992-1994) e do que si próprio, ao terminar o primeiro mandato, em 1998.

A grande marca do governo Sarney foi o Plano Cruzado, que tinha como objetivo derrotar a inflação. A estabilidade de preços resultou na esmagadora vitória do PMDB, partido do presidente, nas eleições de 1986. No entanto, a estabilidade não foi duradoura e, ao fim de seu governo, com a volta da inflação, Sarney era reprovado por 56% dos brasileiros, segundo pesquisa realizada em março de 1990.

Fernando Collor de Mello, vitorioso na primeira eleição direta para presidente da República desde 1960 (quando havia sido eleito Jânio Quadros), prometia modernizar a economia e derrotar a inflação. Ao assumir, tomou medidas duras, com a limitação de 50 mil cruzados novos dos saques à poupança, conta corrente e aplicações financeiras, e congelamento de preços.

Alvo de denúncias de envolvimento em um esquema de corrupção, o presidente foi afastado do cargo em setembro de 1992. Pesquisa realizada naquele mês mostrava que Fernando Collor de Mello era reprovado por 68% dos brasileiros.

Itamar Franco, que substituiu o presidente afastado, terminou seu mandato com a maior popularidade entre os presidentes aqui citados, sendo aprovado por 41%.

Contou a favor de Itamar Franco o fato de que, durante seu governo, foi criado o Plano Real, cujo sucesso em controlar a inflação, além de elevar sua popularidade, foi fundamental para levar o Ministro da Fazenda responsável pela implementação do Plano, Fernando Henrique Cardoso, à Presidência da República.

Assim, Fernando Henrique Cardoso iniciou seu primeiro mandato com uma popularidade semelhante à obtida por Itamar Franco no final de seu governo: em março de 1995 a aprovação ao presidente era de 39%; consideravam seu desempenho regular 40% e ruim ou péssimo 16%.

A aprovação a Fernando Henrique Cardoso durante o primeiro mandato se manteve em torno de 40% a maior parte do tempo. Seu pico de aprovação foi 47%, em dezembro de 1996. Seus piores momentos foram em junho de 1996, quando o presidente era aprovado por 30% e reprovado por 25% dos brasileiros, e durante parte de 1998, quando a aprovação ao presidente oscilou entre 35% e 31% e a reprovação foi de 21% para 25%.

Em junho de 1996 o presidente ainda sofria o impacto do massacre de 19 trabalhadores rurais sem-terra no Pará, ocorrido em abril daquele ano.

Em 1998 o país sofreu o impacto de uma crise econômica internacional e ocorreram os escândalos do grampo no BNDES e do Dossiê Caribe.

Fernando Henrique Cardoso terminou seu primeiro mandato atingindo 35% de aprovação e 25% de reprovação, segundo pesquisa realizada em dezembro de 1998. Para 37% ele vinha fazendo um governo regular.

Considerando-se o perfil socioeconômico dos entrevistados, verifica-se que a aprovação a Fernando Henrique Cardoso é maior entre os empresários (45%) e profissionais liberais (41%), entre os brasileiros que têm renda familiar mensal superior a R$ 2.000,00, ou dez salários mínimos, aqueles que têm nível superior de escolaridade (33%, em cada segmento) e entre os que têm 60 anos ou mais (32%). Entre os desempregados a reprovação ao presidente chega a 43%.

Fernando Henrique Cardoso atinge 33% de aprovação na região Sul; dos dez estados nos quais é possível análise dos resultados de maneira individualizada, Santa Catarina é aquele no qual o presidente tem maior aprovação: 36% dos catarinenses consideram seu desempenho ótimo ou bom. No Paraná o presidente é aprovado por 33%, e no Rio Grande do Sul por 32%. Das nove capitais que permitem o mesmo tipo de análise, Curitiba é a mais simpática ao presidente, dando a ele 36% de aprovação; em Florianópolis essa taxa é de 32%, e em Porto Alegre de 30%. Nas cidades localizadas no interior o presidente atinge 30% de aprovação.

Por outro lado, no Nordeste o presidente é reprovado por 41%. As maiores taxas de reprovação a Fernando Henrique Cardoso são verificadas nos estados da Bahia, do Ceará e do Rio de Janeiro (42%, cada), e em Pernambuco (41%). Em Salvador verifica-se o recorde de rejeição ao presidente: lá, 64% consideram o desempenho de Fernando Henrique Cardoso ruim ou péssimo. O presidente é reprovado ainda por 55% dos moradores de Fortaleza, por 46% dos cariocas, por 43% dos moradores do Recife e por 39% dos paulistanos. Nas cidades localizadas em Regiões Metropolitanas a reprovação ao presidente chega a 43%.

A aprovação ao presidente fica acima da média entre os simpatizantes de seu partido, o PSDB, chegando a 50%, entre os que declaram simpatia pelo PFL (35%) e os que citam o PMDB como partido de preferência (33%). Entre os declaram ter votado em José Serra, candidato derrotado do PSDB à Presidência, a aprovação a Fernando Henrique Cardoso é de 45%.

Fernando Henrique Cardoso é reprovado por 48% dos simpatizantes do PT e por 44% dos que declaram ter votado no petista Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência.

A nota média atribuída ao presidente, em uma escala de zero a dez, é 5,0. Para 18% o presidente merece a nota mínima e, para 8%, a nota máxima. Atribuem a ele nota cinco 19%.

*Segundo entrevistados, Fernando Henrique Cardoso e Getúlio Vargas
foram melhores presidentes que o país já teve*

Fernando Henrique Cardoso empata tecnicamente com Getúlio Vargas (que governou o país entre 1930-1945 e 1951-1954), como o melhor presidente que o país já teve na opinião dos brasileiros, revela a pesquisa do Datafolha. O empate se dá no limite da margem de erro máxima da pesquisa, que é de dois pontos, para mais ou para menos. Estatisticamente é mais provável que Fernando Henrique Cardoso, citado como o melhor por 18%, esteja à frente. Getúlio Vargas recebe 14% das citações. Considerando a margem de erro máxima da pesquisa, o real percentual de citações a Fernando Henrique Cardoso pode ser de 16%, no mínimo, a 20%, no máximo, e a taxa de menções a Getúlio Vargas situa-se em uma faixa que vai de 12% a 16%.

Getúlio Vargas também empata tecnicamente com José Sarney (1985-1990), citado por 11%, que, por sua vez, empata com Juscelino Kubitschek (1956-1961), mencionado por 8%.

Vêm a seguir João Batista Figueiredo (1979-1985), citado por 3%, Itamar Franco (1992-1994), Fernando Collor de Mello (1990-1992), citados por 2%, cada e Jânio Quadros (1961), mencionado por 1%. Cerca de um terço (29%) dos entrevistados não soube dizer qual foi o melhor presidente que o Brasil já teve.

Esta pergunta permitia uma única resposta, espontânea, e foi feita da seguinte maneira: "Pelo que você sabe ou ouviu falar qual foi o melhor presidente que o Brasil já teve"?

Entre os brasileiros com idade entre 25 a 34 anos as menções a Fernando Henrique Cardoso chegam a 21%; já entre os que têm 60 anos ou mais o atual presidente é citado por 13%, sendo superado por Getúlio Vargas, mencionado por 31%.

Juscelino Kubitscheck é citado por um em cada cinco (20%) dos brasileiros com nível superior e renda familiar mensal acima de R$ 2.000,00. Nestes segmentos o presidente que idealizou Brasília empata com Fernando Henrique Cardoso e Getúlio Vargas.

A pesquisa também mostra que, nas regiões Norte e Centro-Oeste, a taxa dos que consideram Fernando Henrique Cardoso o melhor presidente da história do país chega a 26%. Nestas regiões as citações ao maranhense José Sarney também ficam acima da média, atingindo 14%. No Sul as menções ao gaúcho Getúlio Vargas atingem 17%.

As citações ao atual presidente ficam acima da média no estado de Pernambuco (22%) e no Paraná (21%). Getúlio Vargas é citado especialmente pelos moradores dos estados do Rio de Janeiro (24%) e do Rio Grande do Sul (20%). As citações a José Sarney chegam a 15% no Rio Grande do Sul e a 14% em Santa Catarina e no Distrito Federal. As menções a Juscelino Kubitscheck chegam a 23% no Distrito Federal; JK é citado por 18% dos mineiros e por 12% dos cariocas. Entre os paulistas as opiniões ficam dentro da média.

Considerando nove capitais do país, verifica-se que Getúlio Vargas é citado especialmente pelos moradores do Rio de Janeiro (27%), de Porto Alegre (25%) e de Curitiba (21%). As menções a José Sarney chegam a 21% em Fortaleza; em Belo Horizonte, cerca de um terço (31%) consideram que Juscelino Kubitscheck foi o melhor presidente que o Brasil já teve.

*Desemprego é marca negativa de governo Fernando Henrique Cardoso
Aumenta taxa dos que consideram a fome principal problema do país*

O desemprego continua sendo considerado o principal problema do país pela maior parte dos brasileiros; no entanto, ao fim do mandato de Fernando Henrique Cardoso, a questão da fome ganha relevo entre a população.

Citam o desemprego como principal problema do país 34% dos brasileiros, taxa oito pontos inferior à verificada em setembro; já as citações à fome e miséria passaram, no mesmo período, de 5% para 15%.

Pode ter contribuído para esse salto a ênfase dada à questão pelo presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, que, em suas primeiras declarações após a eleição, anunciou a criação de um plano (o "Fome Zero") para combater a fome e a desnutrição no país.

O percentual dos que citam a questão da segurança pública caiu de 18%, em setembro, para 14% hoje. A taxa dos que mencionam a saúde oscilou de 8% para 7%.

A pesquisa mostra que a preocupação com a inflação também cresceu, passando de 1% na última pesquisa para 5% hoje.

Vêm a seguir educação, economia, de modo geral (3%, cada), corrupção e salários (2%, cada).

As menções ao desemprego ficam acima da média no estado de São Paulo (39%) e na capital paulista (38%).

Citações à fome são mais frequentes na Bahia (20%), na cidade de Salvador (22%), no Recife, em Fortaleza, em Porto Alegre e na cidade do Rio de Janeiro (18%, cada).

A questão da segurança pública é citada especialmente no Distrito Federal (20%), no estado e na cidade do Rio de Janeiro (18% e 19%, respectivamente), em Belo Horizonte (21%) e em Porto Alegre (18%).

Entre os brasileiros mais escolarizados e com maior renda as citações à educação como principal problema do país ficam acima da média. Entre os que têm nível superior de escolaridade a educação é citada por 10%; entre os que têm renda familiar acima de R$ 2.000,00 essa taxa é de 9%.

Para 19% dos brasileiros a área na qual o governo Fernando Henrique Cardoso se saiu melhor foi a Saúde. Citam a Educação 10% e a economia, de um modo geral, 9%. A questão da inflação é citada por 6% e a área social, de maneira geral, por 2%. Para 14% o governo que se despede em 31 de dezembro não se saiu melhor em nenhuma área; não souberam dizer em qual setor o governo se saiu melhor 26%.

Como seria de se esperar, o principal problema do país também é aquele no qual o desempenho do governo Fernando Henrique Cardoso para resolvê-lo foi considerado pior: o desemprego. Indagados sobre a área na qual o governo do atual presidente se saiu pior 19% citaram o combate à falta de empregos no país. Vêm a seguir a área da segurança pública (10%), a saúde (7%), a questão da inflação (6%), os salários, a economia, de modo geral (5%, cada), a educação e a questão da fome (4%, cada). Não souberam dizer em que área o governo Fernando Henrique Cardoso se saiu pior 24%.

O Datafolha solicitou aos entrevistados uma avaliação do desempenho do governo Fernando Henrique Cardoso em 17 áreas específicas. Destas, a que recebeu maior taxa de aprovação foi o Esporte: para 52% o governo teve um desempenho ótimo ou bom nos assuntos esportivos. Recebem taxas de aprovação na faixa dos 40% a área da Educação (45%), as Comunicações (44%), a Cultura (43%), a Saúde (42%), o Turismo (42%) e a área de Ciência e Tecnologia (40%). O desempenho do governo na área de Relações Exteriores é aprovado por 37%.

A atuação na área da Energia é aprovada por 35%, mas reprovada por percentual similar (31%). O desempenho na área do Meio Ambiente é aprovado por 33%, considerado regular por 36% e ruim ou péssimo por 21%. Quanto à área de Transportes, 32% aprovam o desempenho do governo, 33% consideram-no regular e 29% ruim ou péssimo. Em relação à economia, de modo geral, o governo Fernando Henrique Cardoso é aprovado por 24%, reprovado por 37% e considerado regular por 35%. O desempenho na área da Habitação é reprovado por 31%, considerado regular por 39% e ótimo ou bom por 23%.

As maiores taxas de reprovação ao desempenho do governo são verificadas em relação ao combate à corrupção e em áreas ligadas à questão social.

A maioria (55%) considera o desempenho de Fernando Henrique Cardoso no combate aos corruptos ruim ou péssimo. Para 25% ele foi regular, e para 14% ótimo ou bom nessa área.

Em relação à reforma agrária, 36% acham que o governo teve um desempenho ruim ou péssimo, o dobro dos que acham que sua atuação foi ótima ou boa; para 35% o desempenho do governo nesta área foi regular.

Cerca de metade (52%) dos entrevistados desaprovam a maneira como o governo Fernando Henrique Cardoso tratou do combate à fome e à miséria. Para 29% o governo foi regular nessa área; 16% avaliam-no como ótimo ou bom.

E o desemprego, mais uma vez, aparece como um aspecto negativo no balanço dos anos FHC: 67% consideram ruim ou péssimo o desempenho do governo nessa área; para 24% o governo foi regular e apenas 8% consideram-no ótimo ou bom no combate ao desemprego.

Para brasileiros, políticos e banqueiros ganharam e trabalhadores perderam durante governo

Políticos, citados por 33%, e bancos, mencionados por 29%, foram os setores da sociedade e da economia brasileiras mais beneficiados durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Vêm a seguir, mais de vinte pontos percentuais atrás, a Indústria, o setor da Agricultura (7%, cada), o Comércio (6%), os trabalhadores de um modo geral (5%) e o setor de Serviços (2%). Não souberam dizer o setor mais beneficiado 9%.

Na opinião de cerca de metade (49%) dos entrevistados, por outro lado, os maiores prejudicados durante o governo FHC foram os trabalhadores, de um modo geral. O percentual de citações aos trabalhadores é quatro vezes superior ao setor que vêm a seguir, a Agricultura, citada por 12%. Comércio e Serviços são citados por 9%, cada, e a Indústria é mencionada por 7%; citam os Bancos e os políticos 2%.

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