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Ideias afinadas com esquerda voltam a empatar com pensamento de direita

Opinião Pública -

Os brasileiros se dividem igualmente entre esquerda e direita hoje no país, demonstram suas opiniões a uma série de temas comportamentais e econômicos que permitem posicioná-los dentro do espectro político clássico que inclui, além dos polos de esquerda e direita, também o centro político. A direita hoje abrange 40% da população adulta do país, considerando tanto a direita (10%) quando a parcela de centro-direita (30%). Na esquerda estão 41%, divididos entre a esquerda posicionada mais ao estremo do espectro político, representada por 10%, quanto a centro-esquerda, que soma 31%. Entre eles está o centro, que abrange 20% dos brasileiros.

Para chegar a essa classificação, o Datafolha consultou os brasileiros sobre uma série de questões envolvendo valores sociais, políticos, culturais e econômicos, e a partir daí os posicionou em escalas de comportamento e pensamento econômico, dentro das quais eles foram segmentados em esquerda, centro-esquerda, centro, direita e centro-direita. A união dos resultados dessas escalas resultou em uma escala geral de posicionamento ideológico, definida pela mesma segmentação.

Comparado a resultados de setembro de 2014, o estudo atual mostra um encolhimento da direita (de 45% para 40%) e um crescimento da esquerda (de 35% para 41%). O centro, no mesmo período, manteve-se igual, representado por 20%.

A diminuição da parcela de direita na população está ligada, principalmente, ao crescimento do apoio neste grupo a posições mais identificadas com a esquerda no campo do comportamento. Considerando somente a escala de comportamento, a parcela de direita passou de 55% para 47%, enquanto a esquerda cresceu de 24% para 31% entre 2014 e 2017. O centro oscilou de 21% para 22%.

Na escala que mede o posicionamento econômico, poucas mudanças: 28% têm posicionamentos mais identificados com a direita (eram 30% em 2014), e 44%, com a esquerda (em 2014, 43%). A parcela de centro, neste caso, é de 29% (era de 27 há três anos).

Opiniões sobre comportamento impelem população para a esquerda

A avaliação das questões da escala de comportamento mostra que houve crescimento expressivo, de 58% para 77%, na parcela dos que acreditam que "boa parte da pobreza está ligada à falta de oportunidades iguais para que todos possam subir na vida", posição identificada com a esquerda, em detrimento dos que acreditam que "boa parte da pobreza está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar" (de 37% para 21%), posição mais identificada com a direita. Também teve alta, de 64% para 74%, a avaliação de que a "homossexualidade deve ser aceita por toda a sociedade", e caiu de 27% para 19% a avaliação de que a "homossexualidade deve ser desencorajada por toda a sociedade", resultado que também fortalece a esquerda na matriz de comportamento. Outra questão que beneficiou a posição da esquerda foi a alta, de 36% para 41%, na avaliação de que "a maior causa da criminalidade é a falta de oportunidades iguais para todos", com consequente queda de 60% para 56% na avaliação de que "a maior causa da criminalidade é a maldade das pessoas". Houve ainda alta de 63% para 70% no índice dos que acreditam que "pessoas pobres de outros países e Estados que vêm trabalhar na sua cidade contribuem com o desenvolvimento e a cultura", posição identificada com a esquerda na matriz ideológica.

Nem todos os movimentos na matriz de comportamento, porém, se deram na direção da esquerda. O posicionamento mais à direita, sobre o direito de possuir arma, por exemplo, tem crescido: em novembro de 2013, 30% acreditavam que "possuir uma arma legalizada deveria ser um direito do cidadão para se defender", enquanto 68% defendiam que "a posse de armas deve ser proibida, pois representa ameaça à vida de outras pessoas". Em setembro de 2014, a posição pró-armamento teve o apoio de 35%, e a contrária, de 62%. Agora, esses índices são de 43% e 55%, respectivamente. Também cresceu a opinião antissindical: entre 2014 e 2017, passou de 50% para 58% a avaliação de que "os sindicatos servem mais para fazer política do que defender os trabalhadores", e caiu de 42% para 38% o índice dos que acreditam que "os sindicatos são importantes para defender o interesse dos trabalhadores", acompanhado de queda de 8% para 4% na parcela sem opinião sobre o tema.

O fortalecimento destas posições mais afinadas com a direita, porém, não foi suficiente para compensar o avanço das posições mais afinadas com a esquerda. Para outras questões, houve pouca variação ou estabilidade, como na avaliação de que "o uso de drogas deve ser proibido porque toda a sociedade sofre com as consequências", identificado com a direita, que oscilou de 82% para 80% entre 2014 e 2017, em detrimento dos que defendem que "o uso de drogas não deve ser proibido, porque é o usuário que sofre com as consequências", que oscilou de 15% para 17%. A avaliação de que "a pena de morte é a melhor punição para indivíduos que cometem crimes graves", também mais afinada com a direita, oscilou de 43% para 42% nesses mesmo período, enquanto a posição contrária, de que "não cabe à Justiça matar uma pessoa, mesmo que ela tenha cometido um crime grave", passou de 52% para 55%.

Também houve pouca variação na avaliação majoritária de que "acreditar em Deus torna as pessoas melhores", que passou de 86% para 83%, e no sentido contrário, de que "acreditar em Deus não necessariamente torna uma pessoa melhor", que foi de 13% para 17%. O mesmo vale para a defesa de que "adolescentes que cometem crimes devem ser punidos como adultos", cujo apoio passou de 76% para 73%, enquanto a posição contrária, de que "adolescentes que cometer crimes devem ser reeducados" passou de 23% para 25%.

A análise da matriz de comportamento mostra que, considerando de forma conjunta as parcelas de esquerda e centro-esquerda, há diferença significativa entre homens (25%) e mulheres (37%) neste grupo. Entre os mais jovens, a esquerda abrange 44%, e cai conforme o avanço da faixa de idade (varia de 26% a 27% nos três segmentos acima de 35 anos). Na parcela dos menos escolarizados, 23% perfilam na esquerda, índice que sobe para 32% entre quem tem escolaridade média e para 42% na parcela com ensino superior. Também há diferença entre os mais pobres, com renda mensal familiar de até 2 salários (28% na esquerda), e mais ricos, com renda familiar mensal superior a 10 mínimos (37% na esquerda). Regionalmente, o menor percentual da esquerda, considerando questões de comportamento, está no Centro Oeste (22%), e o maior, no Sudeste (34%). Nas cidades menores, com até 50 mil habitantes, 27% estão na esquerda, ante 37% nas maiores cidades, com 500 mil moradores ou mais.

Com tendências contraditórias, pensamento sobre economia fica estável

A relativa estabilidade entre direita, esquerda e centro na matriz de pensamento econômico, verificada entre 2014 e 2017, mostra menos uma ausência de movimentos nas posições dos brasileiros sobre economia do que mudanças importantes de posicionamento em direções opostas que acabaram por se anular. Esses movimentos contraditórios indicam que a população, de forma geral, espera que o governo intervenha menos no mercado, para estimular a competitividade entre as empresas, mas seja o principal responsável por investir e fazer a economia crescer.

Atualmente, 46% dos brasileiros avaliam que "quanto menos o governo atrapalhar a competição entre as empresas, melhor para todos", e outros 46%, que "é bom que o governo atue com força na economia para evitar abusos das empresas". Em novembro de 2013, a posição mais afinada com a direita, com a defesa de menor intervenção do governo no mercado, era compartilhada por 31%, e a avaliação de que o governo deveria intervir com mais força tinha apoio de 58%. Em setembro de 2014, essa diferença já havia diminuído (51% a 35%), e agora há empate entre elas.

No sentido contrário, passou de 66% para 76%, entre 2014 e 2017, a avaliação de que "o governo deve ser o maior responsável por investir no país e fazer a economia crescer", mais afinada com a esquerda, enquanto a posição de que "as empresas privadas devem ser as maiores responsáveis por investir no país e fazer a economia crescer" oscilou de 22% para 20%. Ajudou mais o fortalecimento da posição à esquerda, neste caso, a diminuição no índice dos que não têm opinião sobre o tema (de 12% para 4%) do que o enfraquecimento na posição ligada à direta.

Ainda na seara do papel do governo no mercado, a defesa de que "o governo tem o dever de ajudar grandes empresas nacionais que corram o risco de ir à falência", mais intervencionista e afinada com a esquerda, passou de 59% para 63% desde o levantamento de 2014, e a posição contrária, de que "o governo não deve ajudar grandes empresas nacionais que corram o risco de ir à falência", passou de 30% para 33%. A diminuição no percentual dos sem opinião sobre o assunto, de 11% para 4%, contribuiu para a elevação dos índices de ambas as posições.

A avaliação de que "quanto menos eu depender do governo, melhor estará minha vida" cresceu de 49% para 54%, e caiu de 46% para 41% a fatia dos que acreditam que "quanto mais benefícios do governo eu tiver, melhor estará minha vida", alinhada à esquerda. Também houve crescimento, de 33% para 38%, no apoio na posição que afirma que "as leis trabalhistas no Brasil mais atrapalham o crescimento das empresas do que protegem os trabalhadores, por isso boa delas deveria ser eliminada", de direita, em detrimento da que diz que "as leis trabalhistas no Brasil mais protegem os trabalhadores do que atrapalham o crescimento das empresas, por isso boa parte delas deveria ter seus direitos ampliados", que oscilou de 53% para 52%. Fez diferença, nesta questão, a diminuição do percentual sem opinião sobre o tema, que caiu de 15% para 9%.

Por fim, entre 2014 e 2017 passou de 49% para 51% o índice dos que defendem que "é preferível pagar menos impostos ao governo e contratar serviços particulares de educação e saúde", afinada com a direita, enquanto a posição contrária, que defende que "e preferível pagar mais impostos ao governo e receber serviços gratuitos de educação e saúde" passou de 40% para 43%. O índice dos que não opinaram caiu de 11% para 6% no mesmo período.

No segmento dos mais pobres, com renda mensal familiar de até 2 salários, 47% se alinham à esquerda na matriz de pensamento econômico, índice que cai para 37% na fatia dos que têm renda familiar de 5 a 10 salários, e de 38% entre quem obtém 10 salários mínimos ou mais.

Lula alcança auge na esquerda, e Bolsonaro se fortalece nos segmentos de direita

A avaliação do cenário eleitoral de acordo com o perfil ideológico dos brasileiros mostra que Lula tem preferência acima da média nos segmentos de esquerda, e abaixo da média na direita. O oposto ocorre com Bolsonaro e Doria, mais fortes na direita.

No cenário em que os principais concorrentes são Lula (30% das intenções de voto), Marina (15%), Bolsonaro (15%), Doria (10%) e Ciro Gomes (6%), o petista alcança 39% na parcela da esquerda, cai gradualmente para 32% na centro-esquerda, 31% no centro, 28% na centro-direita e 18% na direita. Bolsonaro obtém 20% tanto na centro-direita quanto direita, cai para 13% no centro, para 11% na centro-direita e fica com 9% entre os que estão na esquerda. O prefeito de São Paulo João Doria alcança 17% na direita, cai para 11% na centro-direita, marca 9% tanto no centro quanto na centro-esquerda, e na esquerda fica com 8%. Já Marina se destaca positivamente na centro-esquerda (20%), e Ciro Gomes, na esquerda (9%).

Com Alckmin no lugar de Doria pelo PSDB, Bolsonaro ganha força no segmento da direita (24%, ante 16% na média da população). Na centro-direita, fica com 21%, no centro, com 15%, na centro-esquerda, com 12%, e na esquerda, com 8%. Lula alcança 37% na esquerda, 31% na centro-esquerda, 30% no centro, 29% na centro-direita e 20% na direita. O governador de São Paulo Geraldo Alckmin tem 8% na média geral, e não há variação significativa nos segmentos do perfil ideológico.

A análise da rejeição reforça essas tendências: 57% na direita não votariam de jeito nenhum em Lula. A rejeição ao petista, que é de 46% de forma geral, cai para 50% na centro-direita, para 42% no centro, fica em 44% na centro-esquerda, e fica em 32% na esquerda. Na média da população, Alckmin é rejeitado por 34%, e sua rejeição máxima fica em 38% no segmento de esquerda. No caso de Bolsonaro, que tem rejeição de 30% entre os brasileiros, o índice na esquerda alcança 48%, e cai gradualmente (para 32% na centro-direita, para 29% no centro, para 24% na centro-direita, e para 22% na direita). A rejeição a Doria, de 20% na média da população, tem rejeição acima da média na esquerda (30%).

Auto identificação política desloca brasileiros para o centro

Além das questões comportamentais e econômicas que permitiram definir esse perfil ideológico, os brasileiros também foram consultados sobre sua posição política. Para isso, foram informados de que "muita gente quando pensa em política utiliza os termos esquerda e direita", e então puderam se posicionar politicamente usando uma escala que "um" é o máximo à esquerda e "sete" o máximo à direita.

O centro, identificado pelo número 4, foi escolhido por 26%. Em direção à direita, 9% se colocaram na centro-direita (5), e 23%, na direita (6+7). Do outro lado, 9% optaram pela centro-esquerda (3), e 19%, pela esquerda (2+1).A média geral (4,1) ficou próxima da nota representada pelo centro (4). Uma parcela de 14% não soube se posicionar sobre o tema.
A comparação com consulta realizada em 2010 mostra que houve crescimento dos que se posicionam no centro (eram 17%) e na esquerda (de 12% para 19%), enquanto a centro-direita recuou de 13% para 9%. No mesmo período, a centro-esquerda oscilou de 8% para 9%, e a direita, de 24% para 23%. Também houve queda significativa na fatia dos que não sabem se posicionar: eram 25%, e agora são 14%.

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